Conmebol e a luta contra o racismo: Teremos um final feliz?

Entidade aumentou o rigor das punições por discriminação, mas histórico levanta dúvidas

Infelizmente, o racismo é novamente a pauta principal do futebol sul-americano. Nas últimas semanas, episódios envolvendo clubes brasileiros jogaram luz contra um problema que a Conmebol, por décadas, negligenciou. Então, a entidade resolveu tomar uma iniciativa.

Novas sanções para clubes envolvidos em casos de discriminação podem pesar no bolso e ainda comprometer o desempenho esportivo. Porém, o histórico ruim da Conmebol levanta dúvidas sobre a capacidade de acabar com o racismo e outros preconceitos nos estádios.

Conmebol endurece punições contra racismo

Pressionada pelos recentes casos de racismo, a Conmebol aumentou as sanções contra atos discriminatórios em todas as suas competições. A partir de agora, a multa aplicada ao clube que quebrar as regras será de US$ 100 mil — antes, o valor era de US$ 30 mil.

Além da parte financeira, a entidade também abriu a possibilidade de penas esportivas para os clubes que estiverem envolvidos nesses casos. O órgão responsável por julgar as denúncias pode fechar parcialmente os estádios ou mesmo retirar o mando das equipes.

Esse movimento ocorre após pressão em cima da entidade, que não é conhecida por punir adequadamente esses casos. Como mostra uma apuração do UOL, por exemplo, as multas para infrações de marketing e publicidade podem chegar a US$ 150 mil. É uma comparação que retrata bem a falta de compromisso da Conmebol.

Cinco casos de racismo em jogos recentes de times brasileiros

Apenas na atual edição da Libertadores, cinco times brasileiros sofreram com algum tipo de discriminação racial em partidas contra adversários estrangeiros. São eles: Fortaleza, Palmeiras, Corinthians, Bragantino e Flamengo.

Até o momento, apenas um caso foi julgado e teve punição definida. No dia 13 de abril, um torcedor do River Plate lançou uma banana na direção da torcida do Fortaleza. O clube argentino foi multado em US$ 30 mil, que era o valor antigo. O torcedor foi suspenso por seis meses de frequentar o estádio.

Depois disso, na rodada entre os dias 26 e 28 de abril, foram outros quatro casos. Em um deles, um torcedor do Boca Juniors chegou a ser preso após ser flagrado imitando gestos de macaco, mas foi solto após pagar fiança.

É provável que esses casos sejam julgados nos próximos dias pela Unidade Disciplinar da Conmebol. Resta saber se haverá uma punição mais enérgica aos clubes.

Conmebol é criticada por ser branda em episódios de discriminação

O endurecimento das penas é um passo importante, mas a Conmebol não é conhecida por tomar atitudes enérgicas contra o racismo. Na verdade, a entidade é branda com outros tipos de crimes e irregularidades, como problemas com as torcidas.

O LANCE! fez um levantamento que exemplifica essa sensação. Desde 2014, ocorreram 48 denúncias ou flagrantes de racismo em competições da Conmebol. Apesar disso, somente 11 delas tiveram alguma punição para o acusado ou clube em questão.

O mais incrível é que, em 32 casos, o autor não foi nem identificado. Além disso, a maioria das vezes em que alguma ação foi tomada, como a prisão dos envolvidos, foi em solo brasileiro. No exterior, muitas vezes não há fiscalização.

Libertadores coleciona casos emblemáticos de racismo

A competição de clubes mais importante da América do Sul vivenciou diversos casos de racismo nos últimos anos — a grande maioria contra jogadores ou torcedores brasileiros.

Mesmo com as filmagens da televisão, os agressores não se intimidam. Abaixo, relembre alguns episódios conhecidos de racismo no torneio.

  • Tinga (14/2/2014): em jogo do Cruzeiro contra o Real Garcilaso-PER, a torcida adversária fazia sons de macaco quando Tinga tocava na bola. O clube foi multado em R$ 27,8 mil.
  • Atlético-MG x Racing (4/5/2016): treinador de goleiros do time argentino simulou estar comendo uma banana na direção de torcedores atleticanos. O Racing demitiu o profissional, mas não houve punição da Conmebol.
  • Corinthians x Cerro Porteño (6/3/2016): durante a partida, um torcedor foi filmado pela TV imitando um macaco na Arena Corinthians. Nada aconteceu.
  • Gabriel Jesus (17/3/2016): a torcida do Nacional-URU protagonizou gestos racistas contra o atacante, então no Palmeiras. O clube uruguaio foi multado em US$ 10 mil.

Portanto, a atitude da Conmebol em aumentar o rigor das penas para conter o racismo nas suas competições é louvável. Porém, é importante que a entidade, de fato, lute contra as discriminações e não deixe os episódios lastimáveis passarem em branco.

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